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URBEX – Vila Rio Seco

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URBEX – Vila do Rio Seco – Fotografia Daniel Pátaro

Em determinados momentos, o asteísmo colabora sem desvios na formação de alguns eventos. Noutros, apenas expõe a localização acidental desses episódios entre seres e espaços. Digo isso pois vivi um episódio luculento, sucedido num antigo bulevar no setor médio da pólis, onde, nos primeiros anos da década de 1930, alguns cidadãos edificaram um inovador redondel, que ficou conhecido no mundo inteiro.

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URBEX – Vila do Rio Seco – Fotografia Daniel Pátaro

O asteísmo está em que, nessa caminhada tantas vezes bisada, eu era obrigado a passar ao lado de um antigo e alto muro de tijolos, na parte meridional da aleia; algo insólito me fez reparar uma construção envelhecida e desmoronando, suspensa num aclive súbito; uma espécie de pórtico, que guardava um vasto pátio baldio, desocupado e quase desabitado. Sem pensar duas vezes, entrei e andejei poucos metros até topar com um homem de semblante tão distinto que eu quase soltei um pasmo sonido, travado pela indispensável responsabilidade de moderação e educação.

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URBEX – Vila do Rio Seco – Fotografia Daniel Pátaro

Pesado, arruçado e maltrapilho, o concierge daquele lugar tinha uma aparência e um talhe que infundia obediência. Apesar dos sinais de senilidade e inópia, era musculado e eficiente. Chamava a atenção em seu rosto os olhos claros e uma verruga na pálpebra, que convertia-o num sujeito desagradável, apesar do seu poder de anuência.

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URBEX – Vila do Rio Seco – Fotografia Daniel Pátaro

Com uma voz lânguida e tremelicosa, dirigiu-se a mim:

– Quem te autorizou a entrar?

Senti uma hostilidade no tom e resolvi dizendo:

– Gostaria de tirar umas fotografias se o senhor aprovar; se não concordar eu vou embora.

– Fique a vontade, aproveite pois será tudo demolido em breve. Vai virar uma faculdade e uma torre de apartamentos de luxo. Agora vou voltar a coxilar pois não gosto muito de me movimentar.

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URBEX – Vila do Rio Seco – Fotografia Daniel Pátaro

Lépido entranhei na área enjeitada, fadada a suscitar a curiosidade nos bisbilhoteiros. Arquitetada num tipo de art déco agrária, cumpria o traçado europeu dominante; o teto triangular alvitrando ventura para as edificações dos investidores e as pequenas casas de madeira para os populachos operários, ditadas pelas mesmas tendências de eras.

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URBEX – Vila do Rio Seco – Fotografia Daniel Pátaro

Ocultada pelo muro alto e protegida pelo andrajo guarda-portão, uma vasta área em ruínas, lembrando uma fazenda, estendia-se campina adentro, chegando quase no meão da cidade.

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URBEX – Vila do Rio Seco – Fotografia Daniel Pátaro

Estava todo o recinto com o relvado envenenado, seco e rente ao solo, amuradas podres e quintais descuidados, oxidados, derribados, punidos pelo descaso, com suas lucernas quebradas, suas estragadas pilastras e suas carunchentas argamassas.

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URBEX – Vila do Rio Seco – Fotografia Daniel Pátaro

A área era nitidamente nociva e doentia, talvez por causa da sujeira, da umidade, dos bolores dos interiores, do odor molesto, das correntes de ar contaminadas, do mau gosto das pichações. Tais atributos convertiam a permanencia ali em algo desconfortável e medonho, a não ser pelas árvores, que dali pareciam controlar toda a cidade.

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URBEX – Vila do Rio Seco – Fotografia Daniel Pátaro

 

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Abluvião

O pé-d´água principiou sossegado, mas de súbito foi como se a abóbada celeste tivesse rachado e moveu-se do alto um autêntico abluvião. Na avenida, a água encharcava as vestes dos transeuntes e enchia plenamente a pavimentação.

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Abluvião Fotografia Daniel Pátaro

As árvores inertes e mudas aparentavam admiração pelo fenômeno.
Um automóvel atravessou o sinaleiro e sem demora emperrou, devido a infiltração da água nos seus mecanismos fundamentais.
Um povaréu transpunha o caminho, no meio dágua, ensopados até o esqueleto, mas foliando com a chuvada.
Os plantios do quintal eram banhados pela água, e a relva se encontrava agora embaixo de algumas úncias de água alvacenta.
Uma ave com o peito amarelo, de asas escuras, buscava acolher-se entre as encorpadas folhas, mas achava-se cada vez mais empapada e se sacolejava sem parar.
O pé-d´água permaneceu um certo tempo, e em seguida acabou tão de supetão como rompera.
Toda a localidade estava purificada e renovada.

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Transpasse

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Transpasse Fotografia Daniel Pátaro

A trilha exigia um incrível esforço do músculo cardíaco. Chegar ali carregando coisas é quase impossível, pois o fardo antigo, além de nos manter conectados às penas e aflições anteriores, fortalece e vivifica as dificuldades de hoje. O dia anterior continua no dia corrente e o porvir fica igual ontem.

Aquele amanhecer verde, suave e níveo, não carregava dentro de si as cintilâncias e os vultos de ontem; o tucano se descortinava sem precedentes e o barulho que se capta da cidade não é a zoada passada.

Marchamos apinhados com as lembranças antigas nos perturbando a vida; e sempre que a consciência for um simples reflexo da memória, ela não fruirá de folga, de trégua, de repouso, nem calma, nem paz; continuará despendendo energia, dissipando-se ininterruptamente. Para ressurgir é obrigatório calar, mas o que está em incessante ação, se consome e fica imprestável.

A luz permanente se atina no silenciar e a sombra está tão junta de nós como o lampejo.

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Neblina

Neblina Fotografia Daniel Pátaro

Uma pequena vila beira a antiga ferrovia suntuosa e imponente. A agora decrépita organização, construída para manter os trens outrora circulando, ainda está de pé, porém as comitivas desvaneceram e as máquinas deterioram estáticas.

Neblina Fotografia Daniel Pátaro

Mas ainda um mundo parece viver sobre esses trilhos, pois estão sempre cheios de gente e de rumor desde a alvorada até muito depois do crepúsculo.

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Quase no ponto central desse vilarejo existe uns assentos baixos e esticados, onde muitos se abancam, engolidos por suas necessidades e expectativas, suas providências e suas alegrias.

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O vetusto relógio anuncia a hora e as pessoas se sentem convocadas. Alguém diz qualquer coisa em voz alta, e um amplo grupo se constitui para observar o avanço da cerrada neblina.

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Texto e Fotografias de Daniel Pátaro.

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Brenha

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Brenha Fotografia Daniel Pátaro

O temporal caiu por muito tempo, com ventos e um aguaceiro diluviano. O solo absorvia a água e a terra estava sendo banhada das árvores. Como a estiagem fora severa nas semanas anteriores, o chão sentia-se recompensado e existia júbilo no alarido da chuva e das águas manando. Havia uma cadência, uma coreografia, rodeada do cicio de inúmeros arroios. Em seguida, que tarde bela! Em pouco tempo encerrariam os barulhos do dia e uma paz intensa predominaria no bairro, ainda que se escutasse o murmurinho dos riachos e o afastado latido de um cachorro.
As cores tinham revindo; era tudo cintilante, a vegetação verde e a imensa árvore aparentavam controlar a cidade. A existência abundante e enérgica espalhava-se por todos os cantos e as hortas estavam melhoradas para a plantação e descartava-se a insuficiência de pastos para as vacas, os bois e seus bezerros; o Cantareira estava cheio e a terra voltava a ser rúbia e propícia a tempos radiantes.

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Balça

Exploração Infravermelha # 13

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Exploração Infravermelha Infrared Filter 780nm Fotografia Daniel Pátaro

As aves e bezerros circulavam por áreas distintas, e notava-se uma ádvena calmaria e ausência sob aquela folhenta árvore, que se hasteava isolada numa vastidão de hortas bem aradas de abundante energia. Divisava no horizonte a cidade, rude e azucrinante, debaixo do sol da invernada; mas ali, sob a solitária árvore, com sua similitude e potência, existiam os traços das sombras, frescura e alegria. Era um ser repleto de força e, ainda que solitária, aparentava orientar as cercanias e até a afastada povoação. Quando a noite mergulhava, nenhuma pessoa buscava a árvore; seu isolamento era muito opressor e optavam por visitá-la enquanto o sol proporcionava as confortadoras sombras ao som do trinar dos pássaros. A luz solar nunca chegava até à base da árvore, onde a harmonia era plena.
Uma modesta trilha levava até a árvore e seguia rumo às verdes hortas. O momento mais notável da árvore era no crepúsculo, quando o topo da árvore colhia as decisivas centelhas, áureas e transparentes. Nessa hora, a árvore aparentava recolher-se em si mesma, para a noite; seus enigmas pareciam estender-se, incorporando-se aos segredos de todos os seres.

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Refúgio

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Um caminho bem preservado se estendia até o cercado da antiga herdade, distendendo-se, daí por diante, por uma pequena trilha. Nas cercanias da propriedade persistiam as ruínas de uma anosa casa. Há muito tempo, aquilo era um admirável reduto, de agradáveis cercas de madeira, com portões acolhedores, postinhos para lamparina e pavimentos no viridário.

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Quanto mais próximo se estava da casinhola, tanto mais convidativas se tornavam suas deslembradas estruturas e entendia-se o ardor usado na construção. Contudo, foi consumida e deixada. Agora aquelas coisas eram escombros, mas a visão deslumbrante que se aproveitava da cerca da fazenda, permanecia.

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Era uma bonita manhã, com a aragem do solstício sacudindo as flôres cintilantes, entre as ruínas. Essas flores eram encantadoras, de matizes ricas e expressivas, e proliferavam em locais incomuns, sobre as pedras, nas rachaduras das taipas e nos átrios.

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Ali floresciam, ariscas e livres, há anos e anos, e parecia uma profanação pisá-las – pois tapavam todo o percurso; aquele era o seu terreno e nós éramos novos desconhecidos, porém elas não nos faziam sentir-nos tais.

 

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Exploração Urbana

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Exploração Urbana Fotografia Daniel Pátaro

“Novamente senti que essa colônia deserta ainda fervilha da terrível inteligência de gerações. Isso encurtou minha presença no local. Região ampla de um assustador silêncio com muitas casas e algumas construções estranhas e atípicas, dignas de uma outra postagem. A temperatura estava na casa dos 32ºC e consegui observar a chuva chegando na hora do equinócio.” URBEX # 9 – Colônia Deserta, por Daniel Pátaro

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Nossa Loucura Cotidiana

Hoje pela manhã encontrei a reportagem abaixo no importante site espanhol, Tendências 21. Me chamou a atenção pois passei alguns meses em 2016 trabalhando no novo documentário, No Bosque da Loucura (página do filme aqui), uma investigação sobre os primórdios da cidade e essa imensa loucura e maldade (em nome do mito do progresso) de avançar destruindo florestas, matas, bosques e agora terras férteis, ou seja, o concreto, as ruas e semáforos tem mais importância na loucura cotidiana atual que o próprio alimento. Boa sorte para todos nós e que 2017 seja um ano repleto de descobertas pessoais e possamos contribuir de alguma maneira para o bem estar geral.

A expansão das cidades ameaça a segurança alimentar

Até 2030 vai ser devorado 300.000 quilômetros quadrados de terras aráveis

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O rápido crescimento das cidades vai devorar 300.000 quilômetros quadrados de terras aráveis até 2030 e envolverá a perda de entre 1,8% e 2,4% da área cultivada atualmente em todo o mundo, de acordo com um estudo. A urbanização mundial terá lugar em terras agrícolas que são quase duas vezes mais férteis do que a média mundial e ameaça a segurança alimentar. Notícia completa em Tendências 21.

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Tempestade de Pedra

Solstício de Verão Fotografia: Daniel Pátaro
Tempestade de Pedra (25 de dezembro de 2016) Fotografia Daniel Pátaro

Chuva de pedra – A chuva de ontem foi realmente incrível. Depois de um sensível e brutal aumento na sensação de calor e abafamento, ela chegou. E chegou trazendo muitos ventos, muita água e muita pedra. Árvores antigas caíram e a energia elétrica só voltou de madrugada. Choveu 26,4 mm em menos de 40 minutos e a velocidade do vento chegou a 96.9 km/h (Sul) às 17:40 horas. Num dia que os termômetros marcaram 33.6°C, pedras congeladas caíram do céu, afastando a poeira, irrigando a terra e equilibrando o clima.

10 anos depois – Lembrei daquele outro fenômeno climático severo e intenso, que atingiu parte da cidade em 2007, causando muita destruição nas estruturas de concreto. Na época foi classificado como micro tornado e assustou os menos avisados. Ainda tenho guardada as fotografias que fiz naquele inesquecível final de tarde, onde a Natureza mostrou o tamanho da nossa insignificância.

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Solstício de Verão 2016

Solstício de Verão 2016

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Solstício de Verão 2016 Fotografia Daniel Pátaro

Na manhã do dia 21 de dezembro de 2016 ocorrerá o momento em que o Sol, durante seu movimento aparente na esfera celeste, atinge a maior declinação em latitude, medida a partir da linha do equador. Tal movimento, chamado Solstício de Verão, marca o final da Primavera e o início do Verão com a  Estação das Chuvas, aqui no hemisfério sul. Viveremos assim o momento em que os raios solares incidem perpendicularmente à superfície da Terra no Trópico de Capricórnio, definindo assim o dia mais longo do ano.

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Solstício de Verão 2016 Fotografia Daniel Pátaro

Em várias culturas ancestrais, o solstício era festejado com festas que deram origem a vários costumes hoje relacionados com o Natal das religiões pagãs. O solstício de inverno, o menor dia do ano, a partir de quando a duração do dia começa a crescer, simbolizava o início da vitória da luz sobre a escuridão. A cultura do Império Romano incorporou a comemoração da divindade persa e hindu de Mitra (Sol Vencedor) através do Sol Invictus. Com o esquecimento das religiões pagãs, a data em que se comemoravam as festas do “Sol Vencedor” passaram a referenciar o Natal, numa apropriação destinada a incorporar as festividades de inúmeras comunidades recém-convertidas ao cristianismo.

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Solstício de Verão 2016 Fotografia Daniel Pátaro

Nas linhas dos círculos polares Ártico e Antártico, os solstícios marcam o único dia do ano em que o dia ou a noite duram 24 horas ininterruptas considerando a estação do ano: verão ou inverno, respectivamente.

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Ciência do Abandono

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Exploração Urbana – URBEX – Fotografia Daniel Pátaro

“Quando vi aquela ruína, logo entendi que era um lugar notável. Uma terra onde a Natureza empreende um trabalho profundo. O que o homem com seu limitado pensamento montou, o ambiente derruba. Não há placa indicando o rumo; a trilha foi engolida pela vegetação; parede e telhado desmoronam lentamente na terra. Entrar ali só a pé ou de bicicleta e quem por acaso fizer isso, logo se apavora e experimenta um medo profundo. Medo do vazio, da solidão, do silêncio e da extinção.”

Trecho do documentário No Bosque da Loucura, de Daniel Pátaro